📔Gitbook

Apresentação

O que é shell

O shell é o "prompt" da linha de comando do Unix e Linux, é o servo que recebe os comandos digitados pelo usuário e os executa.

O shell é aquele que aparece logo após digitar-se a senha do usuário e entrar na tela preta. Ou na interface gráfica, ao clicar no ícone do Xterm, rxvt, Terminal ou Console.

localhost login: root
Password:

Last login: Fri Apr 16 01:57:28 on tty5
[root@localhost root]# _

Ali está o shell, esperando ansiosamente por algum comando para ele poder executar. Essa é a sua função: esperar e executar. Cada comando digitado é lido, verificado, interpretado e enviado ao sistema operacional para ser de fato executado.

No Mac OS X, o shell está em Aplicativos > Utilitários > Terminal. No Windows é preciso instalá-lo com o Cygwin.

Funcionando como uma ponte, o shell é a ligação entre o usuário e o kernel. O kernel é quem acessa os equipamentos (hardware) da máquina, como disco rígido, placa de vídeo e modem. Por exemplo, para o usuário ler um arquivo qualquer, toda esta hierarquia é seguida:

USUÁRIO --> SHELL --> KERNEL --> DISCO RÍGIDO

Para os usuários do Windows, é fácil pensar no shell como um MSDOS melhorado. Ao invés do C:> aparece um [root@localhost root]#, mas o funcionamento é similar. Basta digitar um comando, suas opções e apertar a ENTER que ele será executado. O comando deve estar no PATH, mensagens de aviso são mandadas para a tela e Ctrl+C interrompe o funcionamento. Isso tudo é igual em ambos.

Mas o shell é muito mais poderoso que seu primo distante. Além dos comandos básicos para navegar entre diretórios e manipular arquivos, ele também possui todas as estruturas de uma linguagem de programação, como IF, FOR, WHILE, variáveis e funções. Com isso, também é possível usar o shell para fazer scripts e automatizar tarefas.

Este será o nosso foco: scripts em shell.

Shell script

Um script é um arquivo que guarda vários comandos e pode ser executado sempre que preciso. Os comandos de um script são exatamente os mesmos que se digita no prompt, é tudo shell.

Por exemplo, se de tempos em tempos você quer saber informações do sistema como horário, ocupação do disco e os usuários que estão logados, é preciso digitar três comandos:

É melhor fazer um script chamado "sistema" e colocar estes comandos nele. O conteúdo do arquivo "sistema" seria o seguinte:

E para chamar este script, basta agora executar apenas um comando:

Isso é um shell script. Um arquivo de texto que contém comandos do sistema e pode ser executado pelo usuário.

Antes de começar

Se você está acessando o sistema como usuário administrador (root), saia e entre como um usuário normal. É muito perigoso estudar shell usando o superusuário, você pode danificar o sistema com um comando errado.

Se você não tem certeza qual o seu usuário, use o comando "whoami" para saber

Como o prompt de usuário normal é diferente para cada um, nos exemplos seguintes será usado "prompt$" para indicar o prompt da linha de comando.

O primeiro shell script

O primeiro shell script a fazer será o "sistema" do exemplo anterior, de simplesmente juntar três comandos em um mesmo script.

Passos para criar um shell script

  1. Escolher um nome para o script

Já temos um nome: sistema.

Use apenas letras minúsculas e evite acentos, símbolos e espaço em branco

  1. Escolher o diretório onde colocar o script

Para que o script possa ser executado de qualquer parte do sistema, mova-o para um diretório que esteja no seu PATH. Para ver quais são estes diretórios, use o comando:

Se não tiver permissão de mover para um diretório do PATH, deixe-o dentro de seu diretório pessoal ($HOME).

  1. Criar o arquivo e colocar nele os comandos

Use o nano, VI ou outro editor de textos de sua preferência para colocar todos os comandos dentro do arquivo.

  1. Colocar a chamada do shell na primeira linha

A primeira linha do script deve ser:

Para que ao ser executado, o sistema saiba que é o shell quem irá interpretar estes comandos.

  1. Tornar o script um arquivo executável

Use o seguinte comando para que seu script seja reconhecido pelo sistema como um comando executável:

Problemas na execução do script

Comando não encontrado"

O shell não encontrou o seu script.

Verifique se o comando que você está chamando tem exatamente o mesmo nome do seu script. Lembre-se que no Unix/Linux as letras maiúsculas e minúsculas são diferentes, então o comando "SISTEMA" é diferente do comando "sistema".

Caso o nome esteja correto, verifique se ele está no PATH do sistema. O comando "echo $PATH" mostra quais são os diretórios conhecidos, mova seu script para dentro de um deles, ou chame-o passando o caminho completo.

Se o script estiver no diretório corrente, chame-o com um "./" na frente, assim:

Caso contrário, especifique o caminho completo desde o diretório raiz:

"Permissão Negada"

O shell encontrou seu script, mas ele não é executável.

Use o comando "chmod +x seu-script" para torná-lo um arquivo executável.

"Erro de Sintaxe"

O shell encontrou e executou seu script, porém ele tem erros.

Um script só é executado quando sua sintaxe está 100% correta. Verifique os seus comandos, geralmente o erro é algum IF ou aspas que foram abertos e não foram fechados. A própria mensagem informa o número da linha onde o erro foi encontrado.

O primeiro shell script (melhorado)

Nesse ponto, você já sabe o básico necessário para fazer um script em shell do zero e executá-lo. Mas apenas colocar os comandos em um arquivo não torna este script útil. Vamos fazer algumas melhorias nele para que fique mais compreensível.

Melhorar a saída na tela

Executar os três comandos seguidos resulta em um bolo de texto na tela, misturando as informações e dificultando o entendimento. É preciso trabalhar um pouco a saída do script, tornando-a mais legível.

O comando "echo" serve para mostrar mensagens na tela. Que tal anunciar cada comando antes de executá-lo?

Para usar o echo, basta colocar o texto entre "aspas". Se nenhum texto for colocado, uma linha em branco é mostrada.

Interagir com o usuário

Para o script ficar mais completo, vamos colocar uma interação mínima com o usuário, pedindo uma confirmação antes de executar os comandos.

O comando "read" leu o que o usuário digitou e guardou na variável RESPOSTA. Logo em seguida, o comando "test" verificou se o conteúdo dessa variável era "n". Se afirmativo, o comando "exit" foi chamado e o script foi finalizado. Nessa linha há vários detalhes importantes:

  • O conteúdo da variável é acessado colocando-se um cifrão "$" na frente

  • O comando test é útil para fazer vários tipos de verificações em textos e arquivos

  • O operador lógico "&&", só executa o segundo comando caso o primeiro tenha sido OK. O operador inverso é o "||"

Melhorar o código do script

Com o tempo, o script vai crescer, mais comandos vão ser adicionados e quanto maior, mais difícil encontrar o ponto certo onde fazer a alteração ou corrigir algum erro.

Para poupar horas de estresse, e facilitar as manutenções futuras, é preciso deixar o código visualmente mais agradável e espaçado, e colocar comentários esclarecedores.

Basta iniciar a linha com um "#" e escrever o texto do comentário em seguida. Estas linhas são ignoradas pelo shell durante a execução. O cabeçalho com informações sobre o script e seu autor também é importante para ter-se uma visão geral do que o script faz, sem precisar decifrar seu código.

Rebobinando a fita

Agora é hora de fixar alguns dos conceitos vistos no script anterior.

Variáveis

As variáveis são a base de qualquer script. É dentro delas que os dados obtidos durante a execução do script serão armazenados. Para definir uma variável, basta usar o sinal de igual "=" e para ver seu valor, usa-se o "echo":

Não podem haver espaços ao redor do igual "="

Ainda é possível armazenar a saída de um comando dentro de uma variável. Ao invés de aspas, o comando deve ser colocado entre "$(...)", veja:

E finalmente, o comando "unset" apaga uma variável.

Para ver quais as variáveis que o shell já define por padrão, use o comando "env"

Detalhes sobre os comandos

Diferente de outras linguagens de programação, o shell não usa os parênteses para separar o comando de seus argumentos, mas sim o espaço em branco. O formato de um comando é sempre:

O comando "cat" mostra o conteúdo de um arquivo. O comando "cat -n sistema" mostra o nosso script, com as linhas numeradas. O "-n" é a opção para o comando, que o instrui a numerar linhas, e "sistema" é o último argumento, o nome do arquivo.

O "read" é um comando do próprio shell, já o "date"" é um executável do sistema. Dentro de um script, não faz diferença usar um ou outro, pois o shell sabe como executar ambos. Assim, toda a gama de comandos disponíveis no Unix/Linux pode ser usada em scripts!

Há vários comandos que foram feitos para serem usados com o shell, são como ferramentas. Alguns deles:

Comando
Função
Opções úteis

cat

Mostra arquivo

-n, -s

cut

Extrai campo

-d, -f, -c

date

Mostra data

-d, +"..."

find

Encontra arquivos

-name, -iname, -type f, -exec

grep

Encontra texto

-i, -v, -r, -qs, -w, -x

head

Mostra Início

-n, -c

printf

Mostra texto

nenhuma

rev

Inverte texto

nenhuma

sed

Edita texto

-n, s/isso/aquilo/, d

seq

Conta Números

-s, -f

sort

Ordena texto

-n, -f, -r, -k, -t, -o

tail

Mostra Final

-n, -c, -f

tr

Transforma texto

-d, -s, A-Z a-z

uniq

Remove duplicatas

-i, -d, -u

wc

Conta letras

-c, -w, -l, -L

Use "man comando" ou "comando --help" para obter mais informações sobre cada um deles.

E o melhor, em shell é possível combinar comandos, aplicando-os em seqüência, para formar um comando completo. Usando o pipe "|" é possível canalizar a saída de um comando diretamente para a entrada de outro, fazendo uma cadeia de comandos. Exemplo:

O cat mostra o arquivo todo, o grep pega essa saída e extrai apenas as linhas que contêm a palavra "root" e o cut por sua vez, somente nessas linhas que o grep achou, extrai os 10 primeiros caracteres. Isso funciona como uma estação de tratamento de água, onde ela entra suja, vai passando por vários filtros que vão tirando as impurezas e sai limpa no final.

E por fim, também é possível redirecionar a saída de um comando para um arquivo ao invés da tela, usando o operador ">". Para guardar a saída do comando anterior no arquivo "saida", basta fazer:

O comando test

O canivete suíço dos comandos do shell é o "test", que consegue fazer vários tipos de testes em números, textos e arquivos. Ele possui várias opções para indicar que tipo de teste será feito, algumas delas:

Testes em Variáveis:

  • -lt : Núm. é menor que (LessThan)

  • -gt : Núm. é maior que (GreaterThan)

  • -le : Núm. é menor igual (LessEqual)

  • -ge : Núm. é maior igual (GreaterEqual)

  • -eq : Núm. é igual (EQual)

  • -ne : Núm. é diferente (NotEqual)

  • = : String é igual

  • ≠ : String é diferente

  • -n : String é não nula

  • -z : String é nula

Testes em arquivos:

  • -d : É um diretório

  • -f : É um arquivo normal

  • -r : O arquivo tem permissão de leitura

  • -s : O tamanho do arquivo é maior que zero

  • -w : O arquivo tem permissão de escrita

  • -nt : O arquivo é mais recente (NewerThan)

  • -ot : O arquivo é mais antigo (OlderThan)

  • -ef : O arquivo é o mesmo (EqualFile)

  • -a : E lógico (AND)

  • -o : OU lógico (OR)

Tarefa: script que testa arquivos

Tente fazer o script "testa-arquivos", que pede ao usuário para digitar um arquivo e testa se este arquivo existe. Se sim, diz se é um arquivo ou um diretório. Exemplo de uso:

chevron-righttesta-arquivos.shhashtag

Conceitos mais avançados

Até agora vimos o básico, o necessário para se fazer um script de funcionalidade mínima. A seguir, conceitos novos que ampliarão as fronteiras de seus scripts!

Recebimento de opções e parâmetros

Assim como os comandos do sistema que possuem e opções e parâmetros, os scripts também podem ser preparados para receber dados via linha de comando.

Dentro do script, algumas variáveis especiais são definidas automaticamente, em especial, "$1" contém o primeiro argumento recebido na linha de comando, "$2" o segundo, e assim por diante. Veja o script "argumentos":

Ele serve para demonstrar o conteúdo de algumas variáveis especiais, acompanhe:

O acesso é direto, basta referenciar a variável que o valor já estará definido. Assim é possível criar scripts que tenham opções como --help, --version e outras.

Expressões aritméticas

O shell também sabe fazer contas. A construção usada para indicar uma expressão aritmética é "$((...))", com dois parênteses.

If, for e while

Assim como qualquer outra linguagem de programação, o shell também tem estruturas para se fazer condicionais e loop. As mais usadas são if, for e while.

Diferente de outras linguagens, o if testa um comando e não uma condição. Porém como já conhecemos qual o comando do shell que testa condições, é só usá-lo em conjunto com o if. Por exemplo, para saber se uma variável é maior ou menor do que 10 e mostrar uma mensagem na tela informando:

Há um atalho para o test , que é o comando [. Ambos são exatamente o mesmo comando, porém usar o [ deixa o if mais parecido com o formato tradicional de outras linguagens:

Se usar o [, também é preciso fechá-lo com o ], e sempre devem ter espaços ao redor. É recomendado evitar esta sintaxe para diminuir suas chances de erro.

Já o while é um laço que é executado enquanto um comando retorna OK. Novamente o test é bom de ser usado. Por exemplo, para segurar o processamento do script enquanto um arquivo de lock não é removido:

E por fim, o for percorre uma lista de palavras, pegando uma por vez:

Uma ferramenta muito útil para usar com o for é o seq, que gera uma seqüência numérica. Para fazer o loop andar 10 passos, pode-se fazer:

O mesmo pode ser feito com o while, usando um contador:

E temos ainda o loop infinito, com condicional de saída usando o "break¨:

Exercícios

A melhor parte finalmente chegou, agora é a sua vez de se divertir. Seguem alguns exercícios que podem ser resolvidos usando o que foi aprendido até aqui.

Alguns exigirão pesquisa e necessitarão de algumas ferramentas que foram apenas citadas, mas não aprendidas. O shelleiro também tem que aprender a se virar sozinho!

Exercício 1 - relacao.sh

Recebe dois números como parâmetro e mostra a relação entre eles. Exemplo:

chevron-rightrelacao.shhashtag

Exercício 2 - zerador.sh

Recebe um número como parâmetro e o diminui até chegar a zero, mostrando na tela cada passo, em uma mesma linha. Exemplo:

chevron-rightzerador.shhashtag

Exercício 3 - substring.sh

Recebe duas palavras como parâmetro e verifica se a primeira palavra está contida dentro da segunda. Só mostra mensagem informativa em caso de sucesso, do contrário não mostra nada. Exemplo:

chevron-rightsubstring.shhashtag

Exercício 4 - juntatudo.sh

Mostra na tela "grudados" todos os parâmetros recebidos na linha de comando, como uma única palavra. Exemplo:

chevron-rightjuntatudo.shhashtag

Exercício 5 - users.sh

Do arquivo /etc/passwd, mostra o usuário e o nome completo de cada usuário do sistema (campos 1 e 5) separados por um TAB. Exemplo:

chevron-rightusers.shhashtag

Exercício 6 - shells.sh

Do arquivo /etc/passwd, mostra todos os shells (último campo) que os usuários usam. Não mostrar linhas repetidas. Exemplo:

chevron-rightshells.shhashtag

Exercício 7 - parametros.sh

Mostra na tela todos os parâmetros recebidos na linha de comando, contando-os. Exemplo:

chevron-rightparametros.shhashtag

Bibliografia Complementar

  • Página do autor da apostila utilizada para este Gitbook: http://aurelio.net/shell

  • Livro Programação Shell Linux Autoria de Julio Cezar Neves, Editora Brasport, ISBN 85-7452-118-3

  • Livro BASH - Guia de Consulta Rápida Autoria de Joel Saade, Editora Novatec, ISBN 85-7522-006-3

  • Lista de discussão nacional sobre Shell Script http://br.groups.yahoo.com/group/shell-script

Atualizado